[A incrível e extraordinária fórmula de Nicanor Parra para combater a calvície]

No momento toca Changes de David Bowie – “ch ch changeeess / turn and face the strange / ch ch changeesss / just gonna have to be a different man” -; o ar cheira à fino tabaco Virginia desfiado, com açucares, extratos vegetais e agentes de sabor -algo como oito miligramas de alcatrão. Há um dia ensolarado demais lá fora, o mundo deve estar com amidalite, única explicação coerente para tamanha esquizofrenia climática que assa o sul neste começo de milênio. O lance é que estas palavras não estão aqui para rimar com esquizofrenias, apenas com tabaco e David Bowie. Busco a argamassa certa para edificar uma ponte entre Bowie e Nicanor Parra, uma conexão cujo motivo reserva-se unicamente ao direito de existir pela reflexão. Nada mais. Creio que ambos nunca se encontraram, provavelmente a influência mútua inexista, mas isso realmente não é um problema. Note que existe, entre cantor e poeta, uma conexão capitar interessante, a falta de fios para o chileno, e as variações deles para o inglês. Temo que este artigo soasse melhor nas ondas de Victor Jara, já que ele é, musicalmente, o mártir socialista mais badalado da terra do vinho carmén, tão apreciado por Parra e por ele versejado em tantas rimas: El vino es todo, es el mar / las botas de veinte leguas / la alfombra mágica, el sol / el loro de siete lenguas / Algunos toman por sed / otros por olvidar deudas / y yo por ver lagartijas / y sapos en las estrellas”.

É isso mesmo, esqueçam Bowie, ele é suficientemente glam para suportar este breve desprezo de parágrafos: agora soando junto a Victor Jara e seu violão pouco afinado, aquela voz calma cantando melodias escritas entre uma e outra aula de cinema, quando Salvador Allende ainda era uma esperança.

Conta a lenda que quando o regime de Pinochet o prendeu, Jara estava junto a mais um Estádio Nacional lotado de futuros cadáveres. Notável entre tantos, aproveitaram seu talento para, lentamente, esmagarem os 10 dedos de suas mãos com uma pedra imensa e pontiaguda, para então curtirem seu sangue em notas ao tocar Aqui me quedo em homenagem à revolução pinochetista: “yo no quiero la patria dividida / ni por siete cuchillos desangrada / queiro la luz de Chile enarbolada / sobre la nueva casa construída”. A veracidade desta anedota não é importante, o fato é que Jara apareceu com 17 balas nas costas pouco depois de preso no Estádio Nacional. Parra é contemporâneo de Victor Jara, mas não é badalado. Ambos combateram o autoritarismo de direita, cada qual a seu jeito. O cantor criticava ferozmente o regime militar, o poeta criticava ferozmente qualquer coisa criticável.

O Chile se orgulha muito de possuir dois poetas com o prêmio Nobel de Literatura. Pablo Neruda (esse é seu pseudônimo, mas convenhamos, ele precisava de um, seu nome em cartório é Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto), sem dúvida nenhuma, está arrolado no panteão dos grandes, dos imensos, dos apoteóticos. E lá permanecerá mesmo com aquele ranço stalinista insuportável. É isso que acontece com pessoas que têm crédito. Gabriela Mistral (outra que precisou de um pseudônimo, em sua identidade se lê Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga) foi a primeira lationamericana a ser laureada com o Nobel de Literatura, em 1945. Sua vida daria inveja a Lemony Snicket e o faria repensar com uma pitada extra de humor negro suas Desventuras em Série com os irmãos Baudelaire. Sua poesia, puro encanto.

Mas vamos parar com essa masturbação tautológica e falar logo sobre o que interessa: o poeta Nicanor Parra (esse sem pseudônimos) e sua antologia intitulada Poemas para Combatir la Calvície. Apesar de ele ter rompido com os cânones líricos através de sua antipoesia, a Parra lhe sobrou à penumbra, um cigarro e três postulações perdidas ao prêmio Nobel de Literatura.

Parra formou-se e sobreviveu à Mecânica Avançada, lecionava Mecânica Racional na Universidad de Chile, e desta forma impossível transmuta-se num mártir dos versos. Resiste, vivo e poetando, mesmo com 97 estações, entre primaveras e outonos que compõem as estrofes de sua vida e obra. Obra que, no sentido oposto de sua existência física, segue avivando-se e avivando-se ainda mais pois que neste 2011, Parra lançou Obras completas II & algo +. Nunca duvide deste algo +. Como Pablo Neruda, e diferente do romantismo pegajoso de Gabiela Mistral, ele protagoniza no meu panteão particular de poetas modernos que sabem desgraçar um coração à pena.

A calvície a que se refere Parra é como o lirismo comedido que importunou Manuel Bandeira, e o que ele apresenta como antídoto é uma anti-poética que, como diria o critico e compilador Julio Ortega, o aproxima do laconismo de Kafka, e da ironia de Beckett. Foi a calvície poética de Parra que repensou, imersa nas sílabas sul-americanas, a subjetividade dissociada e o discurso da historicidade, ou seja, a poesia que rodopia desde a fala coloquial até a realidade pós-moderna. Ele desorientou o real a partir de seus chistes e rimas brancas. Mas também experimentou alternativas menos ortodoxas como seus ecopoemas, sem contar a jogatina linguística construída através das poesias-grafite, uma reapropriação poética do caos publicitário urbano. O crítico Julio Ortega acredita que as técnicas que desmontam e descentram o estilo de Parra por meio de técnicas de ready made, do texto trouvé e do plurilingüismo paródico, são características que fazem do poeta um reconstrutor da forma falada da comunicação. Parra está reescrevendo a poesia em lugar deste circuito, e propiciando, desta forma, a irrupção do sentido coletivo num espaço constantemente negado pela poesia.

Já é tempo de Parra ser lembrado. Ele foi um poeta com colhões suficientes para medir poemas quando a poesia moderna desprezava a métrica. E só para importunar a poética standard, Nicanor Parra potencializou a ortodoxia moderna quando ela começou a fraquejar. Talvez o Chile realmente merecesse mais um Nobel, desta vez em medicina, justa homenagem a esta infalível técnica para combater a calvície.



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