[Balaclavas & Os Profetas do Caos]

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(…)Estávamos lá, em algum ponto entre a neurose e a obsessão, a dois passos do miocárdio, a um suspiro da redenção. Meu braço circundando calmamente o arco da catapulta, a pedra em vôo tranqüilo desacelerando o tempo, segundos coagulados como horas, minha cartase concentrada em ódio, a incerteza fragmentava-se numa esperança de êxtase vingativo, enquanto lento decrescia em curva o pequeno paralelepípedo, até despedaçar em milhares de pequenos vitrais apressados quando a vidraça do Banco Sudameris se dilacerou por meu grunhido de liberdade.

De repente, TudoVoltouDeNovoAoRitmoAlucinanteDaFuga,ComoUmaExplosãoQueBrotaDoSilêncioESugaAEntropia.

Precisava ser rápido, senti o salgado do suor nos lábios, e sabia que evaporávamos juntos debaixo da balaclava. A Tropa De Choque saltou detrás da neblina de pimenta como o Exército da Santa Aliança em dia de simonia, precipitando os segundos já antecipados, e atiçando ainda mais a revolta que apertava nossos músculos com toda a força que uma ideologia pode suportar. Despedacei a vidraça daquele maldito dragão cuspidor de dólares nada inocentes, e tinha completa ciência de que eles comprariam outra daquela com a esmola de algum mendigo que ajudaram a mergulhar na sarjeta. Mas o sentimento de vingança que esquenta as veias, a ilusão da rechaça é como um copo com água gelada num dia de 50º em San Pedro do Atacama. É o gemido individualista tomando substância. Mas agora precisava correr, antes que a Santa Aliança despencasse sobre nós, hereges. Não tive tempo de olhar para trás, coloquei toda a potencia de aceleração sobre meu fêmur esquerdo para tomar impulsão e cruzar a próxima quadra da Paulista o mais rápido possível. A tropa estava a menos de 150 metros de mim e a neblina ardente só fazia as coisas ficarem cada vez mais dançantes na minha cabeça.(…)

BALACLAVAS & OS PROFETAS DO CAOS é um livro-reportagem desavergonhadamente old school num eterno affair pós-moderno. São seis capítulos independentes no foco, mas conectados na temática: um individualista travestido de repórter, um repórter trajado de individualista. Um pequeno e modesto recorte das estratégias de resistência e propaganda do anarco-individualismo contemporâneo narradas de dentro, relatadas a partir da vivência crua e intensa, da proximidade medular com os fatos e personagens.

O livro peca pelos excessos, de sarcasmo, bom humor, mau gosto, péssimo humor, frivolidades, auto-desprezo, tiro curto e baixa amplitude. Pecados deliciosos e apimentados que sacam da narrativa qualquer piedade ideológica, qualquer vaga idéia de um jornalismo panfletário e sua hipodermia tendenciosa.

Balaclavas não fala de anarquismo, mas de anarcoindividualismo. É a estética, a plástica e a metodologia se fundindo num bacanal superlativo e nada cartesiano.

Concebido, em sua versão original, como trabalho de conclusão de curso, cadeira de jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa, foi publicado em 2010 pela editora Livro Novo.



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