[Capa, Contracapa, Dedicatória, Sumário e Introdução. Página 8:]

Apoiou então todo o peso do corpo sobre os calcanhares e deixou o fardo distribuir-se sobre a totalidade da sola dos pés. Caminhou, pé ante pé, iniciando pelo direito até a estante elevada por três sustentáculos de madeira maçaranduba marfim. Retirou o livro que era necessário com movimentos firmes e precisos da mão esquerda. Voltou a apoiar-se sobre os calcanhares, agora para girar o corpo em sentido anti-horário, e retornar, pé ante pé, novamente iniciando a trajetória com o membro direito. Percorrido o caminho de volta, sentou sobre a poltrona onde mergulhou numa catarse profunda. Abriu o livro. Passou sem dar importância à capa, contracapa, dedicatória, sumário e introdução. Página 8: Eu exalto este olhar corajoso. Olhos nos olhos. Pensas que não passo de rabiscos fomentando sentidos diversos. Engana-te. Podes ver minha expressão a cada nova sílaba que me torno, sentir minha voz a cada fonema pronunciado, meu agradável aroma subsiste a estes traços e exala-se no inconsciente. Não mais agüentava o vento, o orvalho pregara a última estaca. Seus dedos rogavam pelo toque; sua alma, pela liberdade. Na tentativa compulsiva de apaziguar os turbilhões antagônicos, correu pelo mesmo corredor a escorregar nas lágrimas. Ao fundo, a escuridão o aguardava. Suspirou. Manteve-se inerte por segundos, talvez horas, talvez anos. Logo que rompeu a inércia, sentiu o peso de seus músculos o segurar, prender, amordaçar. Olhou para o chão. Ali estava, onde o havia deixado pouco, talvez muito tempo atrás. Desvendou, com olhar retorcido, a tinta onde se lia, após passar a capa, contracapa, dedicatória, sumário e introdução. Página 8: Eu exalto este olhar corajoso. Olhos nos olhos. Pensas que não passo de rabiscos fomentando sentidos diversos. Engana-te. Podes ver minha expressão a cada nova sílaba que me torno, sentir minha voz a cada fonema pronunciado, meu agradável aroma subsiste a estes traços e exala-se no inconsciente. Esta é minha maldição. Não sou admirada. Não faço seus caprichos. Posso ver sua empolgação diminuir ao percorrer-me longamente, repetidamente. Sinto suas mãos segurando-me, não como vil objeto desejado das traças, mas como possuidor e escravidão. Repetição. Exatamente, eu abro as lacunas pelos meus traços brandos. Queres percorrer as fortificações? Seus escombros? Não penses que não tenho espírito forte para suportar uma recusa. Se quiseres, continua meu parto junto a teus olhos, se não, aborta-me agora. Imediatamente. De página em página, passou dezenas delas sem nenhuma virar. A confraria de suas emoções conspirava contra qualquer sensatez. A história lutava contra a amnésia conscientemente provocada. Os fatos mesclavam-se com os dolorosos açoites da indecisão. O negro tomou conta do espaço. Acalentador. O escuro de seu universo, porém, iluminava certo abismo da amargura. Largou-o de lado como se descarregasse da alma o peso do corpo. Tomou o corredor quase desfalecido, percorrendo sua extensão no ínfimo de suas vontades, das mesmas forças. Ao longe o vento uivava como soprano uma cantiga irritante. Não sabia se eram os pulsos que o deixavam ou ele quem deixava os pulsos. Aquela paisagem o combatia, o expulsava. Percebia que ali logo pereceria sob a potência triste da vida. Não mais agüentava o vento, o orvalho pregara a última estaca. Seus dedos rogavam pelo toque; sua alma, pela liberdade. Na tentativa compulsiva de apaziguar os turbilhões antagônicos, correu pelo mesmo corredor a escorregar nas lágrimas. Ao fundo, a escuridão o aguardava. Suspirou. Manteve-se inerte por segundos, talvez horas, talvez anos. Logo que rompeu a inércia, sentiu o peso de seus músculos o segurar, prender, amordaçar. Olhou para o chão. Ali estava, onde o havia deixado pouco, talvez muito tempo atrás. Desvendou, com olhar retorcido, a tinta onde se lia, após passar a capa, contracapa, dedicatória, sumário e introdução. Página 8: Eu exalto este olhar corajoso. Olhos nos olhos. Pensas que não passo de rabiscos fomentando sentidos diversos. Engana-te. Podes ver minha expressão a cada nova sílaba que me torno, sentir minha voz a cada fonema pronunciado, meu agradável aroma subsiste a estes traços e exala-se no inconsciente. Esta é minha maldição. Não sou admirada. Não faço seus caprichos. Posso ver sua empolgação diminuir ao percorrer-me longamente, repetidamente. Sinto suas mãos segurando-me, não como vil objeto desejado das traças, mas como possuidor e escravidão. Repetição. Exatamente, eu abro as lacunas pelos meus traços brandos. Queres percorrer as fortificações? Seus escombros? Não penses que não tenho espírito forte para suportar uma recusa. Se quiseres, continua meu parto junto a teus olhos, se não, aborta-me agora. Imediatamente. Sou racionalidade por insensatez e minha paranóia uma lógica desmemoriada de todo teu esquecimento. Deixo, por fim, um alento, um sopro, uma falsa compensação por te ter abençoando em meu cortejo. Vê, eu como espelho, portanto, o término de minha autobiografia. O calor percorreu seu corpo. A dialética dos músculos e das ideias, inquietude que sossega. Não havia desejo, mas desespero. Tampouco ansiava um naco de nada, apenas necessitava. Um instinto antes do instante quando um instante antes do instinto aguarda um pouco de embriaguez. De mim. De você. Tudo era seco, todo movimento, mecânico. Esta última vertigem que inaugura a cegueira. Apoiou então todo o peso do corpo sobre os calcanhares e deixou o fardo distribuir-se sobre a totalidade da sola dos pés. Caminhou, pé ante pé, iniciando pelo direito até a estante elevada por três sustentáculos de madeira maçaranduba marfim. Retirou o livro que era necessário com movimentos firmes e precisos da mão esquerda. Voltou a apoiar-se sobre os calcanhares, agora para girar o corpo em sentido anti-horário, e retornar, pé ante pé, novamente iniciando a trajetória com o membro direito. Percorrido o caminho de volta, sentou sobre a poltrona onde mergulhou numa catarse profunda. Abriu o livro. Passou sem dar importância à capa, contracapa, dedicatória, sumário e introdução. Página 8.

* Conto escrito em 2004, eleito o terceiro melhor no concurso de contos dos Campos Gerais.



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