[No alvo da mídia]


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[PUBLICADO NA REVISTA DA CULTURA]
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Meus dois primeiros passos ao iniciar esta reportagem foram, em ordem: pesquisar a fundo o tema, e então contatar as fontes que poderiam contribuir com bons argumentos, preencher lapsos informativos ou problematizar as questões relativas ao papel da mídia, especialmente aquele reservado aos críticos de arte e jornalistas culturais, na construção e desconstrução de rótulos. Após papear com os quatro entrevistados que você logo conhecerá, assumi a responsabilidade de destacar as ideias que me pareciam mais importantes e questionar outras que soavam contraditórias. Em linhas gerais – ou melhor, generalistas –, é mais ou menos isto o que um crítico e um jornalista fazem com uma obra: farejam e deslindam seus pormenores, atentos ao contexto e às particularidades que margeiam sua produção para, por fim, ressaltar aspectos que a distinguam e, ao mesmo tempo, a conecte com seu tempo, seu autor e seu público. A consequência direta desta prática é iluminar o entendimento da obra, contribuindo com a discussão do estado da arte e a desconstrução de rótulos castradores. É público e notório, no entanto, que a coisa não funciona bem assim. É bastante comum – e eu diria muito bem-vindo – que críticos e jornalistas adotem e explicitem um método que vá além da pura subjetividade, sempre tão volátil e dada às paixões de momento. Mas nem isto é capaz de diminuir suas contradições, que ao menos em um caso já começa pela própria nomenclatura: a palavra crítica carrega no lombo uma conotação negativa.

O escritor Sérgio Rodrigues é o homem à frente do Todoprosa, um importante espaço de diálogo sobre literatura no site da revista Veja. Para ele, a superficialidade por trás do uso desenfreado dos rótulos é algo sintomático, ainda que certo grau de rotulação seja inevitável e, por vezes, desejável. “Pensar é categorizar, isso porque você cria categorias e tenta encaixar as coisas nela, e é possível fazer isso com sensibilidade e inteligência. Quando não é feito com inteligência a gente chama de rótulo, quando é feito com inteligência, de categorias.” Sérgio acredita que a melhor crítica, e um jornalismo cultural responsável, é aquele que faz o saber circular socialmente e carrega em si a capacidade de dialogar com um público mais amplo: “Não acredito em crítica encastelada, não acredito na crítica feita para meia dúzia de entendedores”.



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