[O poeta da multidão invisível]


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REPORTAGEM PUBLICADA NO SITE DA REVISTA TRIP
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Na rede social das selfies e dos pratos de comida, Zack Magiezi ganhou quase 800 mil seguidores postando frases líricas compostas em uma máquina de escrever

Se a literatura é a periferia da arte e a poesia é a periferia da literatura, o feito do poeta paulistano Zack Magiezi, 33 anos, se torna ainda mais surpreendente: ele tem quase 800 mil seguidores no Instagram, mais que Caetano Veloso, Valter Hugo Mãe, Arnaldo Antunes e Chuck Palahniuk somados. Isso com apenas um livro publicado: sua estreia, Estranherismo, uma compilação dos poemas postados nas redes sociais, foi editado pela Bertrand Brasil apenas este ano.

De que forma, então, Zack conseguiu seu lugar ao Sol? “Não sei, não planejei nada disso. Foi um sonho que me procurou, e não um que sonhei”, conta. No entanto, sua biografia afetiva explica parte da história, especialmente os primeiros passos de sua ainda recente caminhada na literatura. E ela começou onde começam todas as caminhadas: no pé. “Um pé na bunda, foi assim que passei a escrever, como boa parte dos escritores que conheço. Foi algo muito traumático, porque mudei minha vida, mudei de cidade, para ficar com alguém. O relacionamento foi ótimo, mas o luto pelo fim me machucou muito.” Zack, então, morava numa cidade nova, com um parco círculo de amigos — todos ligados a sua ex. “A sorte foi que tomei duas atitudes que me salvaram: criei um blog para expurgar aquilo que eu estava sentindo e depois uma página no Facebook, pra concentrar os escritos que eu tinha no blog e nos caderninhos.”

O próximo passo era criar a conta no Instagram — @zackmagiezi —, mas havia algumas complicações: “É uma rede voltada para imagem e sou um dinossauro de 1983, não sei mexer em Photoshop. E o pior de tudo é que não tenho nenhum senso estético”, diz Zack. Foi quando ganhou de presente uma máquina de escrever, uma pequena Olivetti que usa até hoje. “Aí que o negócio virou. Hoje só consigo escrever nela. E isso tem uma razão óbvia: a máquina de escrever só escreve, não dá pra ver aplicativo ou navegar, quando você senta na frente dela não tem distração.” A partir de então, seu procedimento é o mesmo: mete a solidão nas ideias, o papel na Olivetti, depois escreve, fotografa e posta.

Zack se embrenha nas palavras para curar as feridas, para tatuar cicatrizes e amansar os monstros que rugem no peito. Por isso, não se considera um escritor ou poeta, “mas apenas um cara que gosta de escrever.” De fato, os versos de Zack são breves pensatas líricas, mas elas descortinam enormes paisagens afetivas e contam das dores do querer – quem quiser chamar isso de poesia, que fique à vontade. O fato é que ele não é um escriba dado à linguagem, mas às coisas do coração, particularmente daqueles corações quebrantados. E quem, neste vasto mundo, nunca sofreu por amor? Quem nunca foi abandonado por uma grande paixão? Quem nunca gritou em silêncio e perdeu noites de sono por um romance que escapou entre os dedos? “Muita gente já tomou um pé na bunda, então muita gente lê e se identifica.”

O poeta é pop
O interessante em Zack é que essa identificação é poderosa e muito cativante. Sua poesia é capaz de sensibilizar uma dona de casa quinquagenária e fã de Tony Ramos, um intelectual especializado em Raymond Williams e até mesmo celebridades globais. “No começo, ficava feliz quando as postagens alcançavam 100 curtidas. Então algumas pessoas públicas e famosas começaram a compartilhar e isso potencializou tudo”, ele conta. “Quando uma Grazi Massafera compartilha algo, algumas pessoas vão atrás pra saber quem é o cara que escreveu. E aí começou um crescimento em progressão geométrica.” Hoje, uma postagem de Zack no Instagram supera facilmente as 40 mil curtidas. “Estar nas redes sociais é o grande negócio. Essas redes, porém, são voltadas pra fora, é onde as pessoas se mostram — fotos maravilhosas, comidas maravilhosas, casais e corpos maravilhosos. E eu fui lá pra escrever o que estava dentro. Mas isso é uma análise posterior, porque não sei como tudo aconteceu. Só foi acontecendo.”

O enorme sucesso permitiu que Zack passasse a viver exclusivamente de sua arte, e que ela chegasse a muitas pessoas, entre as quais gente que sequer tinha contato com a literatura, mas em quem um verso tolo e simplório fez despertar o desejo de ler. “Ser essa porta que se abre e apresenta um novo mundo pra alguém é muito legal”, diz Zack. Por outro lado, a internet traz a ele um sentimento de solidão muito grande, por vezes insuportável. “Eu voltei pra São Paulo há cinco meses, moro com meu irmão e tenho dois ou três amigos. Tem tardes que gostaria de chamar alguém pra conversar, mas não tem ninguém. Aí vou lá no Instagram e tem 700 mil pessoas. Isso é terrível, porque é um paradoxo você ter 40 mil pessoas curtindo um texto seu e ninguém pra trocar uma ideia cara a cara.”

O plano de Zack agora é ter longevidade no meio literário. Ele já fechou o contrato para um segundo livro, com a mesma editora. “Serão textos inéditos, nenhum foi para as redes sociais. E estou tentando fazer uma coisa mais elaborada — um livro de poemas que conta a história de uma mulher, da infância até a velhice, inspirado no Jogo da amarelinha, do Cortázar. Mas não estou planejando muito, meu método é justamente a falta de método.” Por hora, ele apenas ajusta as teclas ruidosas da Olivetti e datilografa um novo verso: “Sei que não vou entrar pra história da literatura. Só quero continuar fazendo o que eu faço.” E há quem diga que quando se faz poesia, a ira se desfaz em lira, e vice-versa. E como versa, visse?



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