[O pornô acidental do Hierofante]

Não Conte a Ninguém ou Mato Você (version de l’amour) from Danilo Sevali on Vimeo.

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[PUBLICADO NO SITE NEGO DITO]
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Esta é uma história discordiana. Iluminada artificialmente com amizade, música e putaria.

E Baudelaire.

Nosso jovem protagonista nomearemos FREY, posto que somos putinhas da semiótica e ele, herói da pauderecência. FREY era um jovem mogiano quando conheceu Danilo Sevali, Gabriel Mattos e Diogo Menichelli, contemporâneos de uma extensa tradição de partituras lisérgicas que responde pela alcunha de Hierofante Púrpura. FREY retornara há pouco de uma incursão coorporativa pelo Pantanal, onde fez crescer as burras nos bolsos chibatando o lombo como produtor de eventos, desvendando as entranhas emaranhadas das mesas de som e devolvendo-se, por fim, para gastar os tubos em equipamentos de luz nos becos de Santa Efigênia.

“Era tipo aqueles lances gigantes de luz, emissores de raios lasers multiformas & multicores em formato de bazuca que, se vacilar na baladinha, te cega num zap certeiro“, Danilo não desvendou se era o haxixe que FREY arranjara com algum duende, ou a insuportável aglomeração de seres humanos cantando em notas verdes a sinfonia da morte, o fato é que lograram evadir-se da geográfica claustrofobia do centro de São Paulo ainda respirando. Com sacolas nas mãos. E uma faísca nas ideias.

Enquanto se desviavam dos pulmões geniosos da santa, nas engrenagens sinápticas de Gabriel, o meloso canabinóide descobria novos caminhos que levavam a estalos poeteros: “E se a gente aproveitasse essas luzes todas e fizesse um clipe pornô?“. Lembraram-se que Luis Meteoro, homem por trás das guitarras e synths do Labirinto, quando ainda dominava as cordas do Seamus, empregara o adjetivo foda a fim de qualificar a canção Não Conte a Ninguém ou Eu Mato Você. É justo dizer que foda, neste caso, supera o arcabouço das palavras insubstituíveis nascidas para descrever o indescritível, tais como do caralho, ou a híbrida foda pra caralho, para aquilo que supera o insuperável, e ainda em relação quantitativa, “o céu tem estrela pra caralho“, se deseja mensurar o imensurável. O fato é que o foda reverberou desde o Meteoro até as memórias dos Hierofantes e num lampejo veio até eles a epifânica música para uma putaria tão intempestiva.

Por mais profana que seja sua arte, Danilo e Gabriel não tinham colhões para filmar o próprio coito, e tampouco suspeitavam de alguma garota que compreendesse a dimensão cósmica do amor úmido debaixo das luzes verdes. Felizmente, isso não era necessário. “O FREY é conhecido entre nossa comunidade de amigos por contar tantos relatos e muitas comédias inacreditáveis. O bom que pra ele é tudo verdade. Nós gostamos tanto da sua persona que esse episódio único na vida da banda só poderia ter acontecido com essa figura, só ele poderia ter aceito essa missão e comprar a ideia como comprou a ponto de não arregar na hora H“.

É importante pontuar que se tratava de um sábado à tarde, e mesmo tomando o rumo da Augusta e acariciando as grandes e pequenas esquinas da Maria Antônia, nenhuma puta é ingênua suficiente para entregar-se num horário tão ensolarado e carente de hormônios. Então, Danilo emprestou seu telefone para FREY enviar uma magnética lufada de paixão para uma interessante amiga de outras paradas gays, de outros carnavais, de uma inesquecível fodamiga.

Trim-Trim-Trim-Trim, ela atende.

Trocam verbos e banalidades. Ele tenta explicar rapidamente as últimas horas, as matutagens eróticas e encaixar entre elas a lembrança de suas coxas, mas gagueja. “Ficou meio sem palavras ou sem saber explicar o que iríamos fazer com a cooperação nada usual dela, quem aqui já recebeu um telefonema sério com a proposta: topa fazer um pornô? Não, não, de boa… é artístico“.

Ela recebeu. E aceitou.

Mas o convite não foi de FREY, e sim de Danilo, que numa lufada de vergonha e indecisão de seu amigo viu-se com o telefone nas mãos, “Fala aí, cara, eu não consigo“. Meu bem, há luzes e máquinas de fumaça, há fumaça sem máquinas também, não te propomos uma suruba, mas arte, queremos este vídeo custe o que custar, coração, temos o álibi perfeito, a música perfeita e talvez, neste momento, eu esteja falando com a garota perfeita.

Ela apenas ria, sorria, grunhia, e Danilo imaginou que era dele, afinal, uma proposta daquelas, uma desconhecida, papo barato, “mas em São Paulo tudo pode acontecer, tudo é possível quando o assunto é bizarrice ou banalidade, o que quer que seja, uma cidade de oportunidades“. Após os últimos suspiros dela: “Tudo bem, te vejo em três horas no metrô República“.

Gabriel foi raptado pelos compromissos da vida pouco antes de rumarem ao encontro da moça. No meio do caminho, FREY deteve-se numa farmácia e comprou dois Viagras, imediatamente engolidos. Assim que ela chegou, subiram a Consolação lentamente a medida que Danilo, emergencial diretor, explicava o conceito do filme. Para que sejamos fiéis ao acontecido, visto que se tornou real numa centelha sapeca de Gabriel, o conceito do filme foi construindo-se pelas cordas vocais de Danilo, que trabalhavam qual um metrônomo de imagens que se valiam da topografia da avenida para nascer subindo, ereto.

Apesar da euforia, ele não estava confortável com a situação, todos ali eram amadores nos traquejos da pornografia, e na posição que se encontrava, de compositor e diretor voyer, tinha o peito acelerando e um constrangimento que inflava como vergonha. “Sei lá não, me sentia tão a vontade com a situação, ao mesmo tempo sabia que seria divertido, ou engraçado, e que estaria fazendo algo deveras inusitado, pois é o que me comove em poder trabalhar com música misturado com vídeo, documentando tudo, registrando tudo, qualquer ideia escrota ou não conceitual, ou besta, sou daqueles que curte gravar as festinhas de aniversário da família, hoje mesmo gravei a da minha avó octogenária“.

Mas era preciso ser detalhista e específico, pois, lá no fundo de sua alma libertária havia um rebelde coxinha clamando para que as frases “agora de quatro“, “um boquete mais profundo, por favor“, ou mesmo, “menos papai-mamãe, cavalga com força enquanto toca os peitos” só fossem pronunciadas em casos de extrema necessidade. Todos temos nossas caretices, e elas nunca desistem de forjar, em ferro de pudor, a chave que libertará o cristão apavorado e enrustido que a professora do maternal, a tia beata, a mãe desesperada ou a sociedade doente salvaram do desbunde.

Em poucos minutos estavam os três no apartamento de Danilo, deixaram-se descansar alguns minutos. FREY aproximou-se do amigo e mencionando a pílula azul, confessou: “Nossa, cara… tô sentindo uma ventania dentro da cueca“. Era uma ótima notícia, sem dúvidas, por isso afastou-se do casal para vasculhar as luzes recém compradas, dar o play no Adubado, sem esquecer de pressionar a tecla repet, e posicionar a câmera Full VHS para um vintage pós-moderno.

“Captei pouco mais de uma hora de material bruto, sexo bruto e não brutal, os dois ali trepando no lusco fusco, na penumbra, sem mostrar a cara, um lance meio de mistério ou medo de dar pala pra sociedade, ou pura timidez mesmo, ou as três alternativas. Fiquei ali no maior dos voyeurismos, mas sem me sentir excitado sexualmente, não arranquei a roupa e pulei no meio dos dois, a intenção era realizar o vídeo, tanto que parei no momento que achei que já tinha os takes necessários, e também por que começou a subir um cheiro de cu sujo sei lá, de queijo passado, e eu saí pra a mini área de serviço que tinha na quitinete que eu morava na época“,
Danilo simplesmente silenciou e saiu pé ante pé, respirou o ar da rua e abriu o livro A Coisa, do Stephen King.

Concentrado, assustou-se quando FREY abriu a porta, pelado e pouco ofegante, o pau na angústia da retração enforcada pela camisinha, que já deslizara alguns centímetros pendida pelo peso do esperma empossado na ponta, balançando entre os joelhos : “Quer gravar mais alguma coisa ou já posso ir pro banho com ela?“. 749 páginas arremessadas juntas desde a mão de Danilo responderam a questão.

Danilo nunca mais viu a garota, Gabriel tampouco. Ela não disse o nome, ou, caso tenha dito, perdeu-se nos devaneios daquele haxixe. Despediu-se dizendo que iria na festa em um apartamento e então desapareceu. Eles não sabem sequer se ela assistiu ao vídeo. Sua única exigência foi um sorvete, na padaria da esquina, logo ali, na Maria Antônia.



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