[Os estilhaços amorosos de Roland Barthes]


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PUBLICADO NA REVISTA DA CULTURA

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O olhar do francês Roland Barthes, o homem das fotos e vídeos – o olho que nos vê –, é sempre terno e até mesmo um pouco triste. Já o olhar de Roland Barthes, o teórico dos livros e artigos – o olho que nos lê –, esse é cortante como um caco de vidro. Barthes foi uma incansável usina de ideias, que, entre as décadas de 1950 e 1980, produziu reflexões capazes de revolucionar diversas áreas do conhecimento que sondam a linguagem (essa misteriosa matriz organizadora da consciência): fotografia, semiologia, ciências sociais, comunicação, filosofia, literatura, linguística e, até mesmo, o amor. Afinal, foi um Barthes recém-sexagenário que decidiu investigar a linguagem do amor, escrever seu vocabulário, investigar a epistemologia por trás de um sentimento tão complexo, lindo e perigoso. Ele dedicou seu seminário na École Pratique des Hautes Études (Ephe), entre 1974 e 1976, aos sonhos e fantasmas, aos dramas e delícias que devastam a alma dos apaixonados. Do seminário nasce o livro Fragmentos de um discurso amoroso, publicado em 1977.

A obra imediatamente causou alvoroço. Muitos acusaram Barthes de ser um aventureiro nas terras altas da filosofia, um incendiário de ideias, um pistoleiro pós-estruturalista. Isso porque Fragmentos de um discurso amoroso é um livro construído por meio de empréstimos de outros pensadores, também de amigos, inimigos, escritores e poetas. Sequenciado como um dicionário de palavras, frases e verbetes típicos do discurso amoroso, o livro é vibrante em intertextualidades (essa lascívia sádica que arrebata todo e qualquer escriba). “É o best-seller de Barthes”, explica Claudia Amigo Pino, professora de Literatura Francesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo: “Os Fragmentos não são um discurso sobre o amor, mas uma forma de produção do amor”.

Mais do que falar sobre o amor, Barthes queria produzir esse sentimento em quem lesse o livro. Segundo Claudia, essa estratégia fazia parte de um projeto experimental, mais achegado à literatura e profundamente biográfico, ao qual ele passou a se dedicar a partir de 1973. “Esse projeto, no entanto, não era desprovido de uma base teórica. A partir, sobretudo, da leitura de Émile Benveniste (1902-1976) e Jacques Lacan (1901-1981), Barthes não pensa mais a linguagem, nesse momento, como uma forma de falar sobre a realidade, mas como uma forma de produção de uma realidade”, conta Claudia. Para isso, ele permitiu que seu texto dialogasse diretamente com Goethe, Lacan, Muller, com anedotas de compadres, com Heine, Proust, com frases de seus alunos ou de seu editor e também com citações suas. Assim como os estilhaços de um espelho, Barthes refletiu o idioma do amor através de um discurso fragmentário. “A fragmentação também tem outro papel: nesse livro, há uma história secreta, um minotauro que precisa estar bem escondido nesse labirinto de fragmentos e referências. Quando, no final, o leitor encontra o monstro, ele se vê impelido a cair no mesmo abismo do qual ele tinha escapado no início. E essa é a grande história de amor do livro”, explica a estudiosa.

Fragmentos é o próprio discurso amoroso de Barthes, como fica evidente na epígrafe do livro: “Assim sendo é um / enamorado que / fala e diz:”. Enamorado de quem? De quê? Da linguagem? “Não é possível afirmar isso em 1977”, esclarece Claudia, que completa: “É nesse ano que ele diz que a língua não é nem reacionária, nem progressista, ‘mas simplesmente fascista’. Ele está apaixonado por uma pessoa em particular, um de seus alunos, que é designado com as iniciais RH no livro”.

L’AMOUR, BARTHES E O MUNDO EM 1977
Em partes vitais do ocidente – como Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e França –, o ano de 1977 foi uma lufada de ar fresco no meio de um caldeirão reacionário: o democrata Jimmy Carter elegeu-se presidente dos EUA, uma fraca fresta de luz entre quatro escuridões republicanas – Nixon e Ford, Reagan e Bush; a Espanha promoveu suas primeiras eleições democráticas após 37 anos de ditadura franquista; os Sex Pistols lançaram seu primeiro e único álbum, Never Mind the Bollocks; David Bowie gravou Heroes e Roland Barthes publicou Fragments d’un discours amoureux pela Éditions du Seuil.

Além de ter sido o ano do punk, 1977 deu sequência à revolução sexual em curso desde a década anterior, encampada então pela geração flower power e hippies de toda sorte, pela tropicália e pelos rebeldes de Paris, pelo movimento gay, pelo feminismo e por toda uma fina cavalaria contracultural que entoou junto, em prol do desbunde, um refrão comum: make love, not war. Como escreveu a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins em O livro do amor: “Durante vinte anos, dos 1960 aos 1980, houve mais celebração do sexo do que em qualquer outro período da história; já havia a pílula anticoncepcional e a Aids ainda não havia mostrado sua cara”. A revolução sexual não apenas chacoalhou os dogmáticos pilares das tradicionalistas sociedades ocidentais, como fez alguns deles desmoronar. As ruínas podiam ser lidas nas melhores publicações semanais: numa pesquisa feita pela revista Time daquele ano, “tornou-se público que 61% das pessoas entrevistadas admitiam ‘ser cada vez mais difícil saber o que é certo ou errado’”.

A revolução sexual estava fazendo sua parte e bagunçando as ideias de muita gente, mudando mentalidades e comportamentos. A semente de tudo havia sido gestada em laboratório, a pílula anticoncepcional, que mudou radicalmente o comportamento amoroso de todo mundo: o sexo foi definitivamente dissociado da procriação e aliado ao prazer. O patriarcado sentiu a corda da história apertar seu pescoço quando as mulheres começaram a jogar realmente duro e fazer valer seu direito ao corpo, o direito de controlar a fecundidade e desvairar os orgasmos. Mas a pílula teve ainda um maravilhoso efeito colateral: trouxe poderosos aliados à causa gay. Como escreveu Regina Navarro: “O fato de o sexo se dissociar da procriação faz com que práticas heterossexuais e homossexuais se aproximem. Alguns anos depois da pílula, nasce o movimento gay, disposto a mostrar que a heterossexualidade não é a única forma de sexualidade”.

É de se imaginar que Barthes estivesse no fronte dessa revolução: intelectual, gay e extremamente charmoso, dono de ideias avançadas e sedutoras, vivendo a Paris dos anos 1970, do último tango e da manteiga de Paul e Jeanne. Só que ele não estava. Barthes não surfou na crista da onda libertária da revolução sexual e, por isso, não pôde enxergar algo novo lá de cima. A ausência do tema da homossexualidade em Fragmentos causa estranheza e talvez revele mais sobre a vida íntima do escritor do que sobre suas ideias. Como explica o escritor e doutor em Semiótica e Comunicação pela PUC-SP, Adriano Messias: “Barthes foi discretíssimo sobre a própria vida sexual em seus livros. Apesar disso, teve diversos namorados e amantes passageiros – e o termo que ele gostava de utilizar para isso era ‘l’amour des garçons’ (o amor dos rapazes), e nunca ‘des hommes’ (dos homens). Se vivesse em nossos dias, ele provavelmente não gostaria de ser denominado gay, nem de participar de movimentos pró-direitos dos homossexuais”. Messias conta que, em uma das últimas crônicas de Barthes, escrita em janeiro de 1980, pouco antes de sua trágica morte – em 25 de fevereiro, ao atravessar a calma Rue des Écoles distraidamente, foi atropelado pela caminhonete de uma lavanderia, ficando em coma e falecendo um mês depois –, intitulada Sexe, ele está bastante desalentado: “Lamentava-se, dizendo que precisava renunciar aos rapazes, pois não recebia deles correspondência em seus desejos”.

Reservado, nunca deixou a barra da saia da mãe, à exceção de suas longas temporadas fora do país. Messias explica que Barthes pouco revelou sobre seus desejos sexuais, seja nas entrelinhas de suas obras, seja por meio das leituras que as embasaram: “Sua homossexualidade foi marcada por muitas questões e angústias, e, às vezes, até mesmo pelo desespero. Seu último affair foi essa paixão não correspondida por RH – Roland Havas, um de seus alunos, que se tornou psiquiatra e psicanalista. Uma paixão da qual apenas algumas notas, não destinadas à publicação, figuram em um de seus cadernos. De alguma maneira, esse affair acabou por inspirar seu Fragments d’un discours amoureux”.

Apenas em 2006, com a publicação do livro Roland Barthes, le métier d’écrire (Roland Barthes – O ofício de escrever, publicado no Brasil em 2009), sua vida privada foi levemente desvelada e enfim colocada em pauta. O biógrafo é Éric Marty, ex-secretário de Barthes e hoje professor de Literatura Francesa Contemporânea na Universidade Sorbonne. “O capítulo Mémoire d’une amitié apresenta brevemente um círculo amoroso de Barthes que se estendia, sobretudo, pelas ruas do Quartier Latin e pelo apartamento de um certo Youssef. Desse grupo, faziam parte François Wahl, editor da Éditions du Seuil, seu namorado, Severo Sarduy, e vários estudantes. É Marty quem confessa que Barthes tinha vários namoradinhos, sempre com muitos problemas de relacionamento, além de uma intensa frequentação de michês e gigolôs e, esporadicamente, até mesmo uma ida a cines pornôs”, conta Messias.

Como não poderia deixar de ser, sobretudo se tratando de um homem refém da palavra escrita e das ideias movediças, vida e obra de Barthes se embaralham em Fragmentos de um discurso amoroso: nunca antes um apaixonado se dispôs a olhar com tanta coragem a própria imagem no espelho – até confundir-se com ela – para logo em seguida espatifá-la com golpes semiológicos tão impiedosos e precisos, tão amargamente biográficos, sendo preciso ler com cuidado se quiser encontrar, entre os cacos de vidro e os fragmentos de texto, as marcas de sangue e os traços de uma paixão reprimida.



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