[Os Poetas de Kleber Bordinhão]


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[PUBLICADO NO SITE NEGO DITO]
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Viro a última página pela segunda vez, bato a brasa no cinzeiro, a ponta guardo no estaleiro dos sonhos futuros que aguardam para queimar, pergunto: quando os versos fazem do escrivão, poeta? Suponho os versos responsáveis pela subjetivação que os vocaciona, nos vocaciona. Estariam eles inflacionados? Então, quantos versos são necessários para elevar um poeta? Empilhá-los apoiando-os nas rimas e escalá-los até o púlpito da imortalidade, poeta alpinista, montanhista, amante da transpiração.

Não, definitivamente esse não é Kleber Bordinhão.

Mas imaginei se na Ponta Grossa às sombras das araucárias curitibanas descansa um jovem poeta escondido. As cidades distam os quilômetros e gerações que um soneto ou hai-kai podem percorrer. Entre a Curitiba de Leminski e a Ponta Grossa de Bordinhão mede-se as “Distâncias do Mínimo”. A Princesa dos Campos Gerais, pele branca polaca, tão reprimida quanto devassa, que por cinco anos deixou-me viver em seu seio, receio, é uma desgraça para a poesia. Uma desgraçada, eu diria. Admiro quando uma rosa vence o asfalto e abre sua beleza para o mundo e para a morte, a rosa de Drummond, ela floresce em estrofes.

Ajeite o bigode, poeta que deixa outros como herança escreve mais que obras-primas, escreve tradição. Está claro que Leminski ajudou a escrever Bordinhão, todos somos escritos, que sejamos pelos que valem a pena. Da originalidade, busquemos a parte que nos cabe, a recriação. Na obra de estreia, Kleber o escrivinhautor de poemas, editada pela série lírica da casa literária Toda Palavra ainda em 2010, e que apenas agora chega às minhas mãos, ela se mostra em detalhes.

Não penso discutir se estamos na pós-modernidade poética, se o contemporâneo que vivemos cruzou conceituações, a arte é o hádron da vida e ao colidi-lo na esperança de respostas, encontramos poesia. Encontrei-a no livro de Bordinhão, cientificamente sinto-me liberto para chamá-lo poeta. A forma, estética asséptica se tomar de assalto à poesia, não é revolucionária neste primeiro trabalho. Flexível para servir de aporte à mensagem, para embelezá-la e profundir significados, para despistar rimas, supera, superamos o concreto sem esquecer-se de absorvê-lo, de peito desarmado, como argamassa que amalgama a poesia do agora.

Das substâncias desta poesia, escolho a sinceridade. Imperativa, quando nega-se a tomar partido da arte, saca-a sua legitimidade. Tomemos Neruda, o homem que fez da poesia uma proposta de existência libertando-se dela para nela reconhecer-se poeta. Não posso imaginar algo mais sincero que isso. Ele era sua poesia, Confieso Que He Vivido, seu livro de memórias assim o incrimina. Não sei se Bordinhão é sua poesia, se é realmente tão sensível quanto seus versejos breves, mas certamente faria muito sentido se fosse. A sinceridade, mesmo que malandra, por vezes erótica, é o que ecoa por mais tempo desde sua poesia, posto que tempo e espaço são, no território do aurático, a mesma coisa.



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