[Papo no breu entre Bueno e eu]


.
[PUBLICADO NO SITE NEGO DITO]

Bueno, entabulemos, ontológicos que fomos para que oníricos sejamos, no presente, outra conversa no escuro. Agora que não está mais aqui e mensuro a lonjura que nunca nos aproximou, enquanto suas células ainda se reproduziam doando potência aos sonhos, amorteço-me em teus traços e traças, ainda que trato com descaso teu traquejo literário que destroça, gramático da psicodelia dos verbos, mas reconheço pelo impacto a vírgula que impôs após aquela noite velha, e por ela eu sentira, obsoleto, um tanto da rima negra da tua partida.

Mas agora falando sério. Não sei o que viu naquele jovem de cabelo curto, um puto aspirante à coxinha, olhos de derrota e marcas no rosto. Você parecia em forma aos 61 anos, talvez desejasse um pouco de diversão nos braços pouco másculos daquele Cleverson Petrecelli. Duas décadas de funcionalismo público no Governo do Estado do Paraná podem ser bem tediosas e avacalhar a sanidade de qualquer um. De qualquer forma, foi uma péssima ideia não pagar os 130 reais, você devia saber que ele era um idiota. Sabe o que comentaram? O Joca Terron, você conhece muito bem o Joca Terron, ele disse que aquele 30 de maio de 2010 encerrou uma inigualável geração de escritores curitibanos. Ele se referia a você e também a Manoel Carlos Karam, Jamil Snege, Valêncio Xavier e Paulo Leminski, o cara que em 1986 te apresentou aos leitores na coletânea Bolero’s Bar (Criar Edições), quando você ainda cortejava, desajeitado, sua musa, a linguagem.

Mas Terron estava errado. Não sobre vocês serem uma geração que dificilmente será batida ou igualada, apesar de torcer para que isso aconteça e ele ter completado a frase com “este país foi para o buraco”, o que torna tudo mais dramático. Porém, quem na verdade encerrou-a foi aquele Cleverson, preso no Centro de Triagem II, em Piraquara, depois de confessar ter enfiado uma faca no seu pescoço. É uma merda quando um escritor, especialmente estes que compartilham referências geográficas e toda a simbiose de valores que estados e cidades podem abarcar, é morto por um idiota. Estúpida sensação dupla de derrota.

Mas a pior parte de toda essa história é que a Ivana Arruda Leite vociferou certeira e decisiva ao afirmar que sua literatura seguiu sempre um caminho tão inovador e peculiar que terminou contigo. “Wilson Bueno não deixa seguidores”, e você já não estava lá.

E mais de um ano e meio depois publicam seu escrito inédito. Prêmio APCA, póstumo. Li uma nota que dizia que “Mano, a noite está velha” é sua obra maior, uma conversa no escuro com um irmão que, como você, agora está morto. O livro é realmente fodástico pelo arrojo autobiográfico, sorumbático em construções nostálgicas, entretanto, acuso o exagero. Por “Mar Paraguayo” o mesmo Terron te proclamou patriarca do Portunhol Selvagem, título nobre e imensamente mais charmosos do que uma década de laureis da APCA.

Como você, emputeci com os prédios caros que a classe média ergueu no bairro do Bigorrilho sitiando-o até a mutação para Champagnat, patacoada cheia de pompa e vazia de sentido. Consumi teu livro em leituras longas e demoradas, entrecortadas por baforadas curtas e rápidas, anuviada em ideias altas que me levavam dezenas de minutos quais inflexões filosóficas de teus fluxos de consciência e amargos monólogos para almas desajustadas. Era a linguagem insinuando-se por você em tintas e pixels pois a desnudava em desconstruções voluptuosas de semiótica e coração, gramática e palpitação. A mesma que hoje me enlaça, ainda puritana se sussurra suas histórias sobre as minhas, mas que já abre as pernas para que eu sinta a brisa que entre elas sobe, hermética, até minhas ideias putas.

Por isso, por eles e ela, te agradeço.



Deixe uma resposta

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.