[Para Jr. Bellé, Sesc Pompeia alimenta o espírito a preços justos]

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MATÉRIA PUBLICADA NO GUIA DA FOLHA DE SÃO PAULO // REPORTAGEM de Rafael Gregório
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SÃO PAULO

Jr. Bellé já publicou dois livros de poesia. Seu novo trabalho, “amorte chama semhora” (Patuá), será lançado em 12/11, na Patuscada. Ele está entre os nove autores convidados pelo “Guia Folha” para apontar seus locais preferidos em São Paulo.

Sesc Pompeia
Ser poeta proletário no miocárdio ardente da locomotiva do Brasil é osso, roído e insosso. A máquina capitaliza os sonhos e inflaciona a realidade: resta a sopa rala, feita com água de garoa e fuligem de óleo diesel. Quanto custa e quem paga o boleto do seu coração? O meu andava caro, acumulando juros, por isso quando descobri o Sesc Pompeia senti um desafogo no peito e no bolso: um lugar lindo (tão Lina Bo Bardi), tão concretista quanto a alma de Sampa. Como resumiu certa vez a ruiva mais maravilhosa da cidade: é um rolê correto. Tem ótimos shows, exposições de arte e peças de teatro para alimentar o espírito a preços camaradas. Para nutrir a carne, faz oferenda de rangos caprichados e boas biritas que não minguarão nossos já parcos caraminguás. Tudo isso cercado por alguns bares rueiros, e portanto convidativos a todo desajustado (ou seja, gente que chora ouvindo Belchior ou lendo Piva). Ao mesmo tempo, há no Sesc Pompeia uma saudável mescla de pessoas de diferentes gerações, estilos, gostos e cheiros um exercício de alteridade capaz de amolecer até mesmo o asfalto duro das ruas escuras e esburacadas que conduzem o paulistano até a tão necessária empatia.

Sesc Pompeia – r. Clélia, 93, Água Branca, região oeste, tel. 3871-7700. Ter. a sáb.: 9h às 22h. Dom.: 9h às 20h. GRÁTIS

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Patuscada
Quem hoje, em sã consciência, apostaria suas melhores fichas na poesia? Com muita sorte e um pouco de lirismo, apenas os loucos e sonhadores, diriam os cidadãos de bem. E quando é que nos tornamos reféns de nossos próprios sonhos? Quando estamos acordados, responderiam os surrealistas de agora. Pois bem, existe um sujeito que escolheu essa rota errática e que ousou fincar a bandeira da literatura no fronte selvagem do capital. Seu nome é Eduardo Lacerda, o homem por trás da editora Patuá e da Patuscada, um bar-bilhar-livraria-sarau ou simplesmente uma zona autônoma temporária onde se juntam copos, mesas, poemas, sorrisos e desilusões. Onde prepara-se! estrofes urgem urgentes como o abraço de adeus de um amigo bêbado. Anote aí: em frente ao Cemitério São Paulo há uma São Paulo dos vivos onde a cerveja é barata, a cachaça é barata, a noite é um barato e a poesia é cara para os caros comparsas que encaram o horizonte como um verso de amor de Neruda, ou uma sacada de Leminski num sobrado velho diante do mar de concreto.

Patuscada – r. Luís Murat, 40, Vila Madalena, região oeste, tel. 98158-3270.

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